« Todas as publicaçõesResenha · Texto de Glauco Bernardo

Rei Lear

Disciplina: Metodologia e pesquisa em direito

Professora: Marcia Alvim

Mestrando: Glauco

Resenha:

SHAKESPEARE, William. Rei Lear. São Paulo: Martin Claret, 2005.

A peça teatral Rei Lear, de William Shakespeare, escrita entre 1605/1606, aborda toda a questão humana da epoca, suas aspirações e anseios, levando ao público os mais intimos sentimenos do homem, desvendando por trás daquela pessoa, laguém dotado de raiva, ódio, compaixão, amor, inveja e toda sorte de sacrilégios. A título de exemplo trazemos a relação do Rei para com suas três filhas

Importante destacar, portanto, que a história se desenrola inicialmente na divisão do reino, tendo o Rei, ao dividí-lo, atribuir partes apenas às suas duas filhas, Goneril e Regane, exlcluindo a terceira, Cordélia. Uma vez de posse das terras, Goneril e Regane tanto tramaram contra o velho Rei que ele acabou ao relento, debaixo de uma tempestade, passando a noite em uma cabana habitada por um mendigo que todos juravam ser louco. Mas, nesse texto, nem tudo é o que parece ser.

Em vez de indigente e louco, Edgar é um nobre, vítima do interesse e da ganância do irmão, que o traiu ao acusá-lo falsamente diante do pai, e o obrigou a buscar refúgio na floresta. Ele vai ajudar Cordélia - a filha expulsa do reino por aparentar indiferença diante da divisão da herança - a lutar para reaver o reino e a honra de Lear, ultrajada pelas duas filhas perversas. Escrita há quase 400 anos, Rei Lear (1606) é uma das peças mais famosas de Shakespeare.

Tudo na presente peça teatral é tão sombrio que, mesmo em família, os personagens são incapazes de distinguir o amor verdadeiro da falsidade e da dissimulação. Rei Lear é uma história que até hoje perturba e inspira novos filmes, óperas e adaptações, mundialmente representadas.

O texto impõe-se pela sua qualidade literária mundialmente reconhecida.

A questão do poder e a sua representação nas tábuas de um palco continuam a ter uma importância excepcional no que toca ao seu aspecto dramático. O teatro de Shakespeare, mais do que para ser lido, é para ser visto e ouvido, e o texto tem, por isso, de sugerir uma dimensão visual na alusão semântica que transmite ao leitor/espectador.

Esta parábola da arte de reinar e dos afetos, que condicionam ou perturbam a escolha do governante, tem raízes profundas na cultura e no imaginário popular.

Na verdade SHAKESPEARE se funde num gênio popular. História bem conhecida e repetidas vezes contada, ela faz parte do repertório intelectual do espectador comum, sendo a sua encenação acessível a um largo público. O perfil psicológico do rei Lear, a sua aposta na sucessão, ao querer dar o reino à filha que mais o amasse, dão sinal de megalomania (Megalomania é um transtorno psicológico onde o doente tem ilusões de grandeza, poder e superioridade. É uma característica do transtorno afetivo bipolar), que é má conselheira em matéria política.

Mas a junção do drama familiar com o problema da governação oferecia ao público uma intimidade que permitia ver de dentro, os chamados bastidores da História, o que este só capta nos seus efeitos exteriores, julgados como conseqüência política.

A sutilidade na vida e na arte de governar, que se ganha com a experiência, abandona o rei Lear, deixa-o à mercê das paixões, da vaidade pessoal, levando à tragédia, cuja magnitude se impõe em toda a sua complexidade na sucessão das cenas que constituem a narrativa do drama. A sintonia entre o tema e as vivências do tradutor é perfeita e revela-se no desenrolar da trama.

O rei protagonista representa um déspota pautado pela suposição de existir a lei de seu próprio gozo, a exemplo de Luiz XIV.

Portanto, ele governa pelo submetimento, cuja contrapartida provoca, em alguns súditos, a identificação idólatra com seu despotismo e, em outros, desperta a obsessiva e ritual suposição de que dele emana uma lei a se obedecer, a ponto de ser venerado com lealdade, mesmo por aqueles que ele maltrata. O rei, ao propor às filhas uma incondicional demanda de amor e de cumplicidade, em troca de parte de seu reino, exemplifica uma proposta megalômana, que permitirá às mesmas lançar mão da perversão sedutória.

Tal proposta de medir o amor das filhas elide qualquer relação fundada no amor, em favor de um pacto perverso.

Já Cordélia, cuja relação com o pai é simbólica e amorosa, não necessita recorrer à sedução. Porém, o rei não pode suportar que ela rejeite sua demanda de identificação idólatra quando ela declara não ser somente filha, mas também mulher para ser amada e desejada por outro homem.

Por esta razão, o rei não pode ouvir as advertências do conde de Kent sobre seu engano em deserdar Cordélia e abrir mão do reino para as duas filhas perversas. Isto porque, abrir mão de seu poder significa multifacetar o governar e isto poderia soar aos olhos do povo como uma confusão entre o pai severo e o pai humilhado, permitindo que as filhas o destituíssem do poder. Mas o conde recebe em troca de sua lealdade, a extradição.

Percebe-se que a perversão vai comparecer em todos os personagens interessados em usurpar algum poder. As filhas, uma vez de posse do reino, recusam-se a abrigar os cavaleiros do pai, para assim destituí-lo de qualquer proteção e poder. Elas cinicamente justificam seu sadismo, de forma aparentemente sensata.

Já Edmundo, filho bastardo do conde de Gloucester, toma a legitimidade do irmão como intrusão limitante de seu gozo e, por isso, justifica sua perversão colocando-se como credor do pai, por ter sido concebido "com mais fogo vital".

Goza sadicamente ao perceber ser "fácil enganar um pai crédulo e um irmão nobre, que não conhece a maldade". Deste modo, fingindo lealdade a ambos, joga um contra o outro. Assim, como no drama maquiavélico, justifica seus atos a fim de usurpar para si a legitimidade e os bens do irmão e põe o pai ao encalço do filho supostamente traidor. Em seguida, ele aproveita para usurpar o título e os bens do pai. Isto porque, tendo conquistado sua confiança através da 4 manipulação, o pai lhe confidencia que ajudará o rei desamparado e que soube que o rei de França invadirá o país para restabelecer a ordem.

Imediatamente ele delata o pai ao duque, marido de uma das herdeiras do rei. Este, supondo-se traído, demonstra sua perversidade facínora ao castigar o conde, que tenta contrariar seu gozo usurpador, arrancando-lhe os olhos. Seu sadismo é assim verbalizado: "ainda que não possamos condená-lo à morte sem a justiça formal, o nosso poder fará uma gentileza ao nosso ódio".

Deste modo, alia-se ao bastardo via especularidade sádica. Porém, é morto pela revolta de um servo do conde mutilado. Sua então viúva, fascinada pela perversão do bastardo, tenta seduzi-lo. O mesmo ocorre com sua irmã, que diz preferir perder a batalha ao seu objeto de desejo. Por isto esta última lhe propõe um pacto para eliminar seu marido, o duque de Albânia, já que ele tenta limitar a perversão da esposa ao perceber que "quem renega as suas origens não tem limite nem caráter" e diz: "a sabedoria e o caráter aos vis parecem vis" e "a imundície adora-se a si própria".

Por esta razão, o duque só aceita ir a guerra para defender a Inglaterra do invasor. Já Cordélia, apesar de ter sido vítima da severidade paterna, guarda deste pai humilhado um resquício de potência e, desta posição "histérica", pretende reverter a impotência e banir a perversão.

Para tal, reconcilia-se com o pai. A Inglaterra vence a batalha e o bastardo, supondo-se imune e impune por sua cumplicidade com as princesas, faz de Cordélia e do rei seus prisioneiros e manda enforcá-la, "colocando a culpa em seu próprio desespero". O bastardo e as princesas são desmascarados em suas intenções e crimes e, sem saída para seu gozo, uma irmã envenena a outra, logo após suicídando-se. O rei não resiste a dor da perda da leal Cordélia, mas será simbolizado como "pai morto", já que é colocado por seus fiéis súditos no lugar de pai ideal. Estes, em seu nome, restabelecem a lei.