« Todas as publicaçõesResenha · Texto de Glauco Bernardo

Modernidade líquida

MESTRADO EM DIREITOS FUNDAMENTAIS

Disciplina: Filosofia Política

Professora: Margareth Leister

Mestrandos: Ana Cristina e Glauco

Resenha: BAUMAN, Zygmunt, Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2000. Capítulos 2 e 5.

FICHAMENTO DE OBRA

Notas sobre o autor: Zygmunt Bauman,nasceu em 19 de novembro de 1925 em Poznán na Polônia e desde 1971 vive na Inglaterra estudou. Professor emérito de sociologia da Universidade de Leeds. Era judeu e sua família fugiu da Zona Soviética da Polônia em 1939 quando os nazistas a invadiram no início da segunda guerra mundial. Mais tarde ele serviu o exército polonês de controle soviético participando de batalhas e onde trabalhou como instrutor de educação política. Publicou diversos livros, entre eles Dialectic of Modernity; Prophet of Postmodernity (Key Contemporary Thinkers); The Social Thought of Zygmunt Bauman; Postmodernity: Invitation, Conversations and Annotated Bibliography 1953-1989.

A OBRA

No capítulo 2 da obra em comento, o autor tece comentários sobre os mundos citados nas obras o Brave New World de Aldous Huxley e o 1984 de George Orwell, dizendo que a disputa era certamente legítima e honesta, pois os mundos tão vividamente retratados pelos dois visionários distópicos eram tão diferentes quanto água e o vinho. O de Orwell era um mundo de miséria e de destituição, de escassez; o de Huxley era uma terra de opulência e devassidão, de abundância e saciedade. Os habitantes do mundo de Orwell eram tristes e assustados; os de Huxley, despreocupados e alegres. Haviam outras diferenças menos notáveis: os dois mundos se opunham em quase todos os detalhes. Ambos compartilhavam o pressentimento de um mundo estritamente controlado; da liberdade individual não apenas reduzida a nada ou quase nada, mas agudamente rejeitada por pessoas treinadas a obedecer a ordens e seguir rotinas estabelecidas; de uma pequena elite que manejava todos os cordões, de tal modo que o resto da humanidade poderia passar toda sua vida movendo-se como marionetes de um mundo dividido entre administradores e administrados. Orwell e Huxley não discordavam quanto ao destino do mundo; eles apenas viam de modo diferente o caminho que nos levaria até lá se continuássemos suficientemente ignorantes, plácidos e indolentes para permitir que as coisas seguissem sua rota natural.

Bauman acredita que o Professor Nigel Thrift, teria classificado as histórias de Orwell e Huxley como discurso de Joshua (a ordem/monotonia é a regra e a desordem, uma exceção -o mundo é centralmente organizado -rigidamente delimitado - mundo ordeiro e controlado) e não como discurso de Gênesis (a desordem é a regra e a ordem uma exceção). Para Bauman até recentemente era o discurso de Joshua; agora e cada vez mais é o discurso de Gênesis.

O mundo que sustentava o discurso de Joshua e lhe dava credibilidade era o fordista. O termo "fordismo", modelo industrial, é uma combinação de formas de ajustes das expectativas e do comportamento contraditório dos agentes individuais aos princípios coletivos do regime de acumulação. O paradigma industrial incluía o princípio tailorista da racionalização que baseava-se na separação dos aspectos intelectual e manual do trabalho, o conhecimento social sistematizado a partir de cima e incorporado ao maquinário pelos projetistas. Quando Taylor e os engenheiros tailoristas introduziram esses princípios no começo do século XX, seu objetivo era forçar o controle da administração sobre os trabalhadores. A fábrica fordista, com a meticulosa separação entre projeto e execução, iniciativa e atendimento a comandos, liberdade e obediência, com o estreito entrelaçamento entre dos opostos dentro de cada uma das oposições binárias e a suave transmissão de comando do primeiro elemento de cada par ao segundo, foi sem dúvida a maior realização, até hoje, da engenharia social orientada pela ordem. O gênio de Henry Ford foi descobrir o modo de manter os defensores de sua fortaleza industrial dentro dos muros, para guardá-los da tentação de desertar ou mudar de lado.

Entende Bauman que podemos dizer que o rumo dos eventos no mundo do capitalismo provou ser o exato oposto do que Max Weber previa quando escolheu a burocracia como protótipo da sociedade por vir e a retratou como a forma por excelência da ação racional. Weber previu o triunfo iminente da racionalidade instrumental, referindo-se também a outro tipo de ação orientada, a que chamou de racional por referência a valores, mas aí se referia a procura de valores "enquanto tais" e "independentes" da perspectiva de sucesso exterior (valores do tipo ético, estético ou religioso), que o capitalismo degradou e declarou dispensável e irrelevante para a conduta racional que promovia.

O conceito da racionalidade referida a valores no esquema weberiano da história é inútil se quisermos captar a essência do momento histórico presente. O capitalismo leve de hoje não é racional por referência a valores. Na falta de uma Suprema Repartição (ou na presença de muitas, competindo pela supremacia, sem que nenhuma delas tenha grande chance de vencer) a questão dos objetivos está novamente posta e destinada a tornar-se causa de muita hesitação, gerando incerteza e também um Estado de ansiedade perpétua. Para Gerhard Schulze este é um novo tipo de incerteza: "não saber os fins, em lugar da incerteza tradicional de não saber os meios. Ao contrário de seu antecessor o capitalismo leve tende a ser obcecado por seus o valores. A pergunta "o que posso fazer?" passou a dominar a ação, minimizando e excluindo a questão "como fazer da melhor maneira possível aquilo que tenho que não posso deixar de fazer?" Como as Supremas Repartições que cuidavam da regularidade do mundo e guardavam os limites entre o certo e o errado não estão mais à vista, o mundo se torna uma coleção infinita de possibilidades. É a infinidade das oportunidades que preenche o espaço deixado vazio pelo desaparecimento da Suprema Repartição. Não surpreende que não mais se escrevam distopias nestes tempos. As utopias da boa sociedade também deixaram de ser escritas.

Bauman alega que no mundo atual, poucas coisas são predeterminadas, e menos ainda irrevogáveis. Poucas derrotas são definitivas, pouquíssimos contratempos, irreversíveis; mas nehuma vitória é tampouco final.

Segundo Zbyszko Melosik e Tomasz Szkudlarek: "Estar inacabado, imcompleto e subdeterminado, é um estado cheio de riscos e anciedade, mas seu contrário, também não traz um prazer pleno, pois fecha antecipadamente o que a liberdade precisa manter aberto. O mundo cheio de possibilidades é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos que nem o mais delicado comensal (consumidor) poderia esperar provar de todos. A infelicidade dos consumidores deriva do excesso e não da falta de escolha.

O capitalismo pesado, no estilo fordista, era um mundo dos que ditavam as leis, dos projetistas de rotinas e dos supervisores; mundo de homens e mulheres dirigidos por outros, buscando fins determinados por outros, de modo determinado por outros. Por essa razão era também o mundo das autoridades: de líderes que sabiam mais e de professores que ensinavam a proceder melhor.

O capitalismo leve, amigável com o consumidor, não aboliu as autoridades que ditam as leis, nem tampouco as tornou dispensáveis. Apenas deu lugar e permitiu que coexistissem autoridades em número tão grande que nenhuma poderia se manter por muito tempo e menos ainda atingir a posição de exclusividade. Quando as autoridades são muitas, tendem a cancelar-se mutuamente, e a única autoridade efetiva na área é a que por cortesia pode escolher entre elas. O "líder" foi um produto não-intencional, e um complemento necessário, do mundo que tinha por objetivo a "boa sociedade" e procurava manter as alternativas "impróprias" à distância. O mundo da "modernidade líquida" não faz nem uma coisa nem outra.

As diferenças entre líderes e conselheiros é que os primeiros devem ser seguidos e agem como intermediários entre o bem individual e o "bem de todos", entre preocupações privadas e questões públicas, e os segundos precisam ser contratados e podem ser demitidos e cuidam de nunca pisar fora da área fechada do privado.

Bauman cita a obra de auto-ajuda Codependent no More de Melody Beattie que adverte/aconselha os seus leitores: "A maneira mais garantida de enlouquecer é envolver-se com os assuntos de outras pessoas, e a maneira mais rápida de tornar-se são e feliz é cuidar dos próprios."

O melhor conselheiro é o que está ciente do fato de que aqueles que receberão os conselhos querem uma lição-objeto. As pessoas em busca de conselho precisam ou acreditam precisar de um exemplo de como outros homens ou mulheres, diante de problemas semelhantes, se desincumbiram deles.

Hilary Radner observa ao explicar sobre a obra Jane Fonda's Workout Book o fato de Jane Fonda ser bastante explícita sobre a essência do que oferece e bastante direta sobre o tipo de exemplo que seus leitores devem seguir, esclarecendo que ela não age com autoridade como quem formula a lei, estabelece norma, prega ou ensina. Ela se "oferece como exemplo". "Sou famosa e amada; sou um objeto de desejo e admiração. Porquê?. Qualquer que seja a razão, existe porque eu a fiz existir."

Bauman entende ainda, que seria arrogante, além de equivocado, condenar ou ridicularizar o vício dos programas de entrevistas num mundo repleto de meios, mas notoriamente pouco claro sobre os fins. É vital saber como agem outras pessoas diante de desafios semelhantes; podem ter explorado partes da questão a que não demos atenção, ou terem descoberto estratégias admiráveis. Nos programas de entrevistas, palavras e frases que se referem a experiências consideradas íntimas e, portanto, inadequadas como tema de conversa são pronunciadas em público para aprovação, divertimento e aplauso universais. Pela mesma razão, os programas de entrevistas legitimam o discurso público sobre questões privadas, tornando o indizível dizível, o vergonhoso, decente. Graças aos programas de entrevistas, Bauman diz poder falar de agora em diante abertamente sobre as coisas que pensava. Muitos pensadores influentes advertem sobre a possibilidade de que a "esfera privada" seja invadida, conquistada pela "pública", parecendo estar se operando a colonização da esfera pública por questões anteriormente classificadas como privadas e inadequadas à exposição pública.

As condições de vida atuais, segundo Bauman, levam os homens e mulheres a buscar exemplos, e não líderes. Levam-nos a esperar que as pessoas sob os refletores, todas e qualquer uma delas, mostrem como "as coisas que importam" são feitas. E enquanto isso for assim, os expectadores e ouvintes treinados para confiar em seu próprio julgamento e esforço na busca de esclarecimento e orientação continuarão a olhar para as vidas privadas de outros "como eles" com mesmo zelo e esperança com que poderiam ter olhado para as lições, homilias, e sermões de vigários e pregadores quando acreditavam que as misérias só poderiam ser aliviadas "reunindo as cabeças". Procurar exemplos, conselho e orientação é um vício e todos os vícios são auto-destrutivos; destroem a possibilidade de se chegar à satisfação. Mesmo que algum deles mostrasse funcionar do modo esperado, a satisfação não duraria muito, pois no mundo dos consumidores as possibilidades são infinitas e o volume de objetivos sedutores à disposição nunca será exaurido.

Bauman cita George Ritzer, dizendo que segundo ele, a busca ávida e sem fim por novos exemplos aperfeiçoados e por receitas de vida é também uma variedade do comprar. Há muitas áreas em que precisamos ser mais competentes e cada uma delas requer uma "compra". A lista de compras não tem fim. Porém, por mais longa que seja a lista, a opção de não ir as compras não entra nela. O consumismo de hoje, porém, não diz respeito às necessidades, nem mesmo as mais sublimes. O consumismo em sua forma atual não está, como sugere Harvie Ferguson, fundado sobre a estimulação do desejo, mas da liberação de fantasias desejosas.

A sociedade pós-moderna envolve seus membros primariamente em sua condição de consumidores, e não de produtores. A vida organizada em torno do papel de produtor tende a ser normalmente regulada. Há um mínimo do que se precisa a fim de manter-se vivo. A vida organizada em torno do consumo, por outro lado, deve se bastar sem normas: ela é orientada pela sedução, por desejos sempre crescentes e quereres voláteis.

Bauman esclarece que a sociedade dos produtores coloca a saúde como padrão que seus membros devem atingir, a sociedade dos consumidores acena aos seus com o ideal de aptidão. A saúde refere-se a uma condição corporal e psíquica que permite satisfação das demandas, do papel socialmente designado e atribuído. O estado de "aptidão", ao contrário, é tudo menos "sólido", não pode, por sua natureza, ser fixado e circunscrito com qualquer precisão. Ainda que muitas vezes tomado como resposta à pergunta "como você está se sentindo"?, seu verdadeiro teste fica para sempre no futuro: "estar apto" significa ter um corpo flexível, absorvente e ajustável, pronto para viver sensações ainda não testadas e impossíveis de descrever de antemão. "Aptidão" significa estar pronto a enfrentar o não usual, o extraordinário.

O status de todas as normas, inclusive a norma da saúde, foi severamente abalado e se tornou frágil, numa sociedade de infinitas e indefinidas possibilidades. O que ontem era considerado normal e, portanto, satisfatório, pode hoje ser considerado preocupante, ou mesmo patológico, requerendo um remédio. A saúde é cada vez mais identificada com a otimização dos riscos.

Os temores que assolam o "dono do corpo" obcecado com níveis inalcançáveis de aptidão e com uma saúde cada vez menos definida e cada vez mais à imagem da aptidão provocariam cautela e circunspecção, moderação e austeridade, atitudes que destoam da lógica da sociedade de consumidores, para o qual podem ser desastrosas. Os consumidores podem estar correndo atrás de sensações táteis, visuais e olfativas, ou atrás das sensações mais profundas e reconfortantes prometidas por um conselheiro especializado. Mas também estão tentando escapar da agonia chamada insegurança. Querem estar pelo menos uma vez, seguros, confiantes; e a admirável virtude dos objetos que encontram quando vão às compras é que eles trazem consigo (ou parecem por algum tempo) a promessa de segurança. O comprar compulsivo é também um ritual feito à luz do dia para exorcizar as horrendas aparições da incerteza e da insegurança que assombram as noites.

Todo o mundo tenta fazer de sua vida uma obra de arte que quer montar a partir do estofo quebradiço da vida, chama-se "identidade". A busca da identidade é a busca incessante de deter ou tornar mais lento o fluxo, de solidificar o fluído, de dar forma ao disforme. As identidades parecem fixas e sólidas apenas quando vistas de relance, de fora. A eventual solidez que podem ter quando contempladas de dentro da própria experiência biográfica parece frágil e vulnerável. A identidade experimentada, vivida, só pode se manter unida com o adesivo da fantasia. Em vista da volatilidade e instabilidade intrínsecas de todas ou quase todas as identidades, é a capacidade de "ir às compras" no supermercado das identidades. Com essa capacidade, somos livres para fazer e desfazer identidades à vontade. Numa sociedade de consumo, compartilhar a dependência de consumidor, a dependência universal das compras é a condição sine qua non de toda liberdade individual; acima de tudo, da liberdade de ser diferente, de ter identidade.

A dependência do consumidor não se limita ao ato da compra, pois lembremo-nos do poder formidável que meios de comunicação de massa exercem sobre a imaginação popular, coletiva e individual. A vida desejada, tende a ser a vida "vista na TV". A vida na telinha diminui e tira o charme da vida vivida: é a vida vivida que parece irreal, e continuará a parecer irreal enquanto não for remodelada na forma das imagens que possam aparecer na tela.

Segundo Jeremy Seabrrok: "O capitalismo não entregou os bens às pessoas; as pessoas foram crescentemente entregues aos bens; o que quer dizer que o próprio caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado de tal forma que elas se agrupam aproximadamente..... com as mercadorias, experiências e sensações... cuja venda é o que dá forma e significado a suas vidas."

A vida de quem escolhe será sempre uma benção mista, porém, mesmo se (ou talvez porquê) a gama de escolhas for ampla e o volume das experiências possíveis parecer infinito. Essa vida está assolada pelos riscos: a incerteza está destinada a ser para sempre a desagradável mosca na sopa da livre escolha.

Quanto maior a liberdade na tela e quanto mais sedutoras as tentações que emanam das vitrines, e mais profundo o sentido da realidade empobrecida, tanto mais irresistível se torna o desejo de experimentar, ainda que por um momento fugaz, o êxtase da escolha. A liberdade de tratar o conjunto da vida como uma festa de compras adiadas significa conceber o mundo como um depósito abarrotado de mercadorias. Dada a profusão de ofertas tentadoras, o potencial gerador de prazeres de qualquer mercadoria tende a se exaurir rapidamente. Os consumidores com recursos, estes se garantem contra as conseqüências desagradáveis como a mercantilização e podem descartar as posses que não mais querem com a mesma facilidade com que podem adquirir as que desejam. Ter recursos implica em liberdade de escolher, mas também, e talvez mais importante, a liberdade em relação às conseqüências da escolha errada e, portanto, a liberdade dos atributos menos atraentes da vida de escolhas.

Em suma: a mobilidade e a flexibilidade da identificação que caracterizam a vida do "ir às compras" não são tanto veículos de emancipação, quanto instrumentos de redistribuição das liberdades. São por isso bençãos mistas, tanto tentadoras e desejadas quanto repulsivas e temidas, despertam os sentimentos mais contraditórios.

Capítulo 5

O autor inicia seu estudo no presente capitulo discutindo a existência da comunidade, e que esta é anterior ao homem, "antes mesmo que os homens começassem a exercitar seus cérebros para criar o melhor código de convívio que sua razão poderia sugerir, eles já tinham uma história (coletiva) e costumes (coletivamente seguidos)."

Nesse sentido indaga: a visão do individuo autocontido é falsa ou prejudicial? Devem os liberais ser censurados por pregar a "opinião falsa" ou por fazer, inspirar ou absolver a falsa política?

Raymond Williams afirma que a sociedade sempre existiu.