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    Por uma outra globalização

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    MESTRADO EM DIREITOS FUNDAMENTAIS

     

    Disciplina:                  Filosofia Política

    Professora:                 Margareth Leister

    Mestrandos:               Elizabeth e Glauco

     

    Resenha:

    Santos, Milton. Por um outra globalização. Rio de Janeiro: RECORD Ed., 13ª ed., 2006.

     

     

    Caixa de texto: M




    ilton Almeida dos Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina - Bahia, em 3 de maio de 1926 — e faleceu (†) em São Paulo, em 25 de junho de 2001.

     

              Filho de professores primários, aprendeu a ler e a escrever aos cinco anos, sem freqüentar qualquer escola. Aos oito, já dominava a álgebra e dava os primeiros passos no francês.

     

              Só foi matriculado num ginásio aos dez anos - o Instituto Baiano de Ensino, em Salvador, internato freqüentado por filhos de famílias de classe média. Aos 15 anos, dedicava suas horas de folga, no intervalo das aulas, a ensinar colegas menores do colégio.

              Descendente de escravos emancipados antes da Abolição, Santos chegou a pensar em cursar engenharia, mas desistiu quando o alertaram que havia resistência aos negros na Escola Politécnica.



              Isso não impediu que enfrentasse várias manifestações de racismo. Durante a fundação da Associação dos Estudantes Secundários da Bahia, da qual Milton Santos participou ativamente, foi convencido a não se candidatar ao cargo de presidente: seus colegas argumentaram que, como ele era negro, não seria capaz de conversar com as autoridades.

     

              Terminado o ginásio, Milton seguiu para a Universidade Federal da Bahia, onde formou-se em direito, em 1948.

     

              Dez anos depois, Milton Santos tornou-se doutor em geografia, pela Universidade de Estrasburgo (França).


              Milton Santos também atuou como jornalista, tendo acompanhado Jânio Quadros numa viagem a Cuba, em 1960, época em que já era um geógrafo conhecido em seu Estado. Tornou-se amigo e profundo admirador de Jânio, chegando a ser subchefe da Casa Civil e representante do governo federal em seu Estado. Mas se decepcionou com a renúncia do então presidente, em agosto de 1961.

     

              Apesar de ter se graduado em Direito, desenvolveu trabalhos em diversas áreas da Geografia, em especial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo. Foi um dos grandes nomes da renovação na geografia brasileira, após a década de 1970.

     

              Em 1964, presidiu a Comissão Estadual de Planejamento Econômico, órgão do governo baiano. Durante sua permanência na comissão, Milton Santos foi autor de propostas polêmicas, como a de criar um imposto sobre fortunas.


              Durante o regime militar, Milton Santos combinava as atividades de redator do jornal "A Tarde", de Salvador, e a de professor universitário. Na época, defendeu posições nacionalistas e denunciou as precárias condições de vida dos trabalhadores do campo.


              Por causa de suas posições políticas, acabou sendo demitido da Universidade Federal da Bahia e passou 60 dias preso no quartel de Cabula, em Salvador. Só foi libertado porque sofreu um princípio de infarto e um derrame facial.

     

     

     


              Aconselhado por amigos, aceitou convite para lecionar no exterior. Foi professor das universidades de Paris (França), Columbia (EUA), Toronto (Canadá) e Dar Assalaam (Tanzânia). Também lecionou na Venezuela e Reino Unido. Só regressou ao Brasil em 1977, na época da "distensão".

     

              Milton Santos foi dos poucos cientistas brasileiros que, expulsos durante a ditadura militar (naquilo que foi conhecido por "êxodo de cérebros"), voltaram depois ao país. Seu "passe" foi disputado por diversas universidades, que o queriam em seus quadros, tendo trabalhado na Universidade Federal Fluminense e ingressando na Universidade de São Paulo em 1984, como professor da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras (FFLCH), foi ainda consultor da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).

     

              Faleceu em 2001, aos 75 anos de idade, deixando uma vasta obra.

     

              Embora pouco conhecido fora do meio acadêmico, Santos alcançou reconhecimento fora do país, tendo recebido, em 1994, o Prêmio Vautrin Lud, (este prêmio é conferido por universidades de 50 países, o "Nobel" da geografia; Foi o único intelectual fora do mundo anglo-saxão a tal título receber.). Acumulou ainda numerosos títulos honoris causa pelo mundo.

     

              Entre os últimos prêmios recebidos por Milton Santos estão o de Homem de Idéias de 1998, oferecido anualmente pelo "Jornal do Brasil" ao intelectual de maior destaque no ano, e o Prêmio Gilberto Freyre de Brasilidade, em 2000, oferecido pelo Conselho de Economia, Sociologia e Política da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FCESP).


              Milton Santos escreveu mais de 40 livros, publicados no Brasil, França, Reino Unido, Portugal, Japão e Espanha. Conciliava seu trabalho acadêmico com a participação na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, da qual fazia parte desde 1991, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano. Escrevia regularmente na seção "Brasil 501 d.C." do caderno Mais!, da Folha.


              O pensador buscava tirar a geografia de seu isolamento, agregando contribuições da economia, sociologia e filosofia. Entre suas obras mais importantes estão: "O Centro da Cidade de Salvador" (1959); "A Cidade nos Países Subdesenvolvidos" (1965); "O Espaço Dividido" (1978); "Espaço e Sociedade" (1979); "Espaço e Método" (1985); "A Urbanização Brasileira" (1993); "Por uma outra Globalização" (2000).

     

              Sua obra "O espaço dividido", de 1979, é hoje considerado um clássico mundial, onde desenvolve uma teoria sobre o desenvolvimento urbano nos países subdesenvolvidos.

     

              Suas idéias de globalização, esboçadas antes que este conceito ganhasse o mundo, advertia para a possibilidade de gerar o fim da cultura, da produção original do conhecimento - conceitos depois desenvolvidos por outros.

     

              A obra de Milton Santos é inovadora ao abordar o conceito de espaço. De território onde todos se encontram, o espaço, com as novas tecnologias, adquiriu novas características para se tornar um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações.

     

              As velhas noções de centro e periferia já não se aplicam, pois o centro poderá estar situado a milhares de quilômetros de distância e a periferia poderá abranger o planeta inteiro.

     

              Daí a correlação entre espaço e globalização, que sempre foi perseguida pelos detentores do poder político e econômico, mas só se tornou possível com o progresso tecnológico.

     

              Para contrapor-se à realidade de um mundo movido por forças poderosas e cegas, impõe-se, para Santos, a força do lugar, que, por sua dimensão humana, anularia os efeitos perversos da globalização.

     

              Estas idéias são expostas principalmente em sua obra A Natureza do Espaço (Edusp,2002).

     

    Pensamentos do autor:

    ·         "A Geografia não é uma disciplina que possa seduzir o mundo moderno. É uma disciplina que se pretende sintética".

    - Em entrevista à Revista Veja, em novembro de 1994

     

     

     

    ·         "A geografia brasileira seria outra se todos os brasileiros fossem verdadeiros cidadãos. O volume e a velocidade das migrações seriam menores. As pessoas valem pouco onde estão e saem correndo em busca do valor que não têm".

    - Em entrevista à Revista Veja, em novembro de 1994

     

     

     

    ·         "Não estou do lado nem da esquerda (política) nem da direita. Estou do lado das idéias".

    - Em entrevista.

     

     

     

     

     

     

     

    A obra:

     

    “Este livro quer ser uma reflexão independente sobre o nosso tempo, um pensamento sobre os seus fundamentos materiais e políticos, uma vontade de explicar os problemas e dores do mundo atual. Mas, apesar das dificuldades da era presente, quer também ser uma mensagem portadora de razões objetivas para prosseguir vivendo e lutando”.

     

              Diferentemente de outros livros nossos o leitor não encontra a aqui listagens copiosa de citações. Tais livros enfocavam questões da sociedade, verdadeiras teses, isto é, e demonstrações sustentadas e ambiciosas, dirigidas sobretudo à seara acadêmica, levando, por isso, o autor a fazer, ao pequeno mundo dos colegas, a concessão de bibliografias copiosas. Todo mundo sabe que esta se tornou quase uma obrigação de scholarship, já que a academia gosta muito de citações, quantas vezes ociosas e até mesmo ridículas.

     

    Introdução geral

     

    O mundo como fábula, como perversidade e como possibilidade.

     

              Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido. Haveria nisto um paradoxo pedindo explicação? De um lado, é abusivamente mencionado extraordinário progresso da ciência e das técnicas, das quais um dos frutos são os nossos materiais artificiais que autorizam a precisão e a intenção intencionalidade. De outro lado, há, também, referência obrigatória à aceleração contemporânea de todas as vertigens que cria, a começar pela própria velocidade. Todos esses, porém, são dados de um mundo físico fabricado pelo homem, cuja otimização, aliás, permite que o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido. Explicações mecanicistas são, todavia, insuficientes. É a maneira como, sobre essa base material, pela criação da torre de babel em que se vive a nossa era a globalizada. Quando tudo permite imaginar que se tornou possível a criação de um mundo veraz, o que é imposto aos espíritos é um mundo de fabulações, que se aproveita do alargamento de todos os contextos, para consagrar um discurso único.

     

    De fato, se desejamos escapar a crença de que esse mundo ancinho apresentado é verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula; o segundo seria o mundo tal como lhe é: a globalização como perversidade; e o terceiro, o mundo como ele pode ser: uma outra globalização.

     

    O mundo tal como nos fazem crer: a globalização como fábula.

     

              Este mundo globalizado, visto como fábula, erige como verdade um certo número de fantasias, cuja repetição, entretanto, acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua interpretação.

     

              A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade é a venda de peças que se alimentam mutuamente e põe em e movimentos elementos essenciais à continuidade do sistema. Damos a aqui alguns exemplos. Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias - para aqueles que realmente podem viajar - também se difundem a noção de tempo e espaço contraditórios. É como se o mundo se houvesse tornado, para nós, ao alcance da mão. O mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. Há uma busca de uniformidade ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isto, o culto ao consumo estimulado.

     

              Fala-se, e igualmente, com insistência na morte do Estado, mas o que estamos vendo é o seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida se torna mais difícil. E esses poucos exemplos, recolhidos numa lista interminável, permitem indagar se, no lugar do fim da ideologia proclamado pelos que sustentam a bondade dos presentes processos de globalização, não estaríamos, de fato, diante da presença de uma ideologia maciça, segundo a qual a realização do mundo atual exige como condição essencial exercícios de fabulações.

     

    O mundo como é: a globalização como perversidade.

     

              De fato, para grande maior parte da humanidade a globalização está se impondo como a fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e a desabrigo se generaliza o em todos os continentes. Novas enfermidades como a Aids se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos progressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. Alastram se e aprofundam se males e espirituais e morais, como os egoísmos, o cinismo, corrupção.

     

              E a perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização.

     

    O mundo como pode ser: uma obra a globalização.

     

              Todavia, podemos pensar na construção de um outro mundo, mediante uma globalização mais humana. As bases materiais do período atual são, entre outras, a honestidade da técnica, a convergência dos momentos, e o conhecimento e do planeta. É nessas bases técnicas que o grande capital se apóia para construir a globalização perversa de que falamos acima. Mas, essas mesmas bases técnicas poderão servir a outros objetivos, se forem impostas ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos. Parece que as condições históricas do fim do século 20 apontavam para a esta última possibilidade. Tais novas condições tanto se dão no plano imperioso como no plano teórico.

     

              Considerando que atualmente se verifica no plano empírico, podemos, em primeiro lugar, reconhecerão certo nome de fatos novos indicativas da emergência de uma nova história. O primeiro desses fenômenos era enorme mistura de povos, raças, culturas, gostos, em todos os continentes. A isso se acrescente, graças aos progressos da informação, a "mistura" de filosofias, em detrimento do racionalismo e europeu. Um outro dado de nossa era, indicativo da possibilidade de mudanças, e a produção de uma população nomeada em áreas cada vez menores, o que permite um ainda maior dinamismo há aquela mistura entre pessoas e filosofias.

     

              É sobre tais alicerces que se edifica o discurso da escassez, afinal descoberta pelas massas. A população aglomerada em poucos pontos da superfície da terra constitui uma das bases da reconstrução e de sobrevivência das relações locais, abrindo a possibilidade de utilização, ao serviço dos homens, do sistema técnico atual.

     

              No plano teórico, o que verificamos é a possibilidade de produção do novo discurso, de uma nova meta narrativas, um novo grande relato. Esse novo discurso ganha relevância pelo fato de que, pela primeira vez na história do homem, se pode constatar a existência de uma a universalidade empírica. A universidade deixa de ser apenas uma elaboração abstrata na mente dos filósofos para resultar da experiência ordinária de cada homem. De tal modo, em um mundo datado como nosso, a explicação do acontecer pode ser feita a partir de categorias de uma história concreta. É isso, também, que permite conhecer as possibilidades existentes e escrever uma nova história.

     

    A produção da globalização.

     

              A globalização é, de certa forma, o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista. Para entendê-la, como, de resto, a qualquer faze da história, há dois elementos fundamentais a levar em conta: o estado das técnicas e o estado da política.

     

              Há uma tendência a separar uma coisa da outra. Daí muitas interpretações da história à partir das técnicas. E, por outro lado, interpretações da história é, a partir da política. Na realidade, nunca houve na história humana separação entre as duas coisas. As técnicas são oferecidas como sistema e realizadas combinada mente através do trabalho das formas de escolha dos momentos e dos lugares de seu uso. É isso que fez a história.

     

              No fim do século XX e graças aos avanços da ciência, produziu-se um sistema de técnicas presidido pelas técnicas da informação, que passaram a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando ao novo sistema técnico uma presença planetária.

     

     

     

              Os fatores que contribuem para explicar a arquitetura da globalização atual são: a unicidade da técnica, a convergência de momentos, a cognoscibilidade do planeta e a existência de um motor único na história, representando pela mais-valia globalizada. Um mercado global utilizando esse sistema de técnicas avançadas resulta nessa globalização perversa. Isto poderia ser diferente se seu uso político fosse outro. Esse é o debate central, o único que nos permite ter a esperança de utilizar o sistema técnico contemporâneo a partir de outras formas de ação. Pretendemos, aqui, enfrentar essa discussão, analisando rapidamente alguns dos seus aspectos constitucionais mais relevantes.

     

    A unicidade técnica.

     

     

              O desenvolvendo da história vai de par com o desenvolvimento das técnicas. Kant dizia que a história é um progresso sem fim: acrescentemos que é também um progresso sem fim das técnicas. A cada evolução técnica, uma nova etapa histórica se torna possível.

     

     

     

     

              O autor aqui faz alusão à unicidade de famílias técnicas, isto é, um conjunto de técnicas que envolvem o planeta como um todo e faz sentir, instantaneamente, sua presença.

     

              Antes havia técnicas hegemônicas e não hegemônicas; hoje, as técnicas não hegemônicas são hegemonizadas. Na verdade, porém, a técnica não pode ser vista como um dado absoluto, mas como técnica já relativizada, isto é, tal como usada pelo homem.

     

              Se a produção se fragmenta tecnicamente, há, do outro lado, uma unicidade política de comando. Essa unicidade política de comando funciona no interior das firmas, mas não há propriamente uma unicidade de comando do mercado global. Cada empresa comanda as respectivas operações dentro de sua respectiva topologia, isto é, do conjunto de lugares de sua ação, enquanto a ação dos estados e as instituições supranacionais não bastam para impor uma ordem global. Levando ao extremo esse raciocínio, poder-se-ia dizer que o mercado global não existe como tal. E a partir da unicidade das técnicas, da qual o computador é uma peça central, que surge a possibilidade de existir uma finança universal, principal responsável pela imposição a todo o globo de uma mais-valia mundial. Sem ela, seria também impossível a atual unicidade de tempo, o acontecer local sendo percebido como elo do acontecer mundial. Por outro lado, sem a mais-valia globalizada e sem essa necessidade de tempo, a unicidade da técnica não teria eficácia.

     

     

    A convergência dos momentos.

     

              A unicidade do tempo não é apenas o resultado de que, nos mais diversos lugares, a hora do relógio é a mesma. Não é somente isso. Se a hora é a mesma, converge, também, os momentos vividos. Há uma confluência dos momentos com resposta àquilo que, do ponto de vista da física, chama-se de tempo real e, do ponto de vista histórico, será chamado de interdependência e solidariedade do acontecer.

     

              Com essa grande mudança na história, tornamo-nos capazes, seja como for, de ter conhecimento do que é o acontecer do outro. Nunca houve antes essa possibilidade oferecida pela técnica à nossa geração de ter em mãos o conhecimento instantâneo do acontecer do outro. Essa é a grande novidade, o que estamos chamando de unicidade de tempo ou convergência dos momentos. A aceleração da história, que no fim do século XX testemunha, vem em grande parte disto. Mas a informação instantânea e globalizada por enquanto não é generalizada e veraz porque atualmente intermediada pelas grandes empresas da informação.

     

              E quem são os atores do tempo real? Somos todos nós? Esta pergunta é um imperativo para que possamos melhor compreender nossa época. A ideologia do de um mundo só e da aldeia global considera tempo real com um patrimônio coletivo da humanidade. Mas ainda estamos longe desse ideal, todavia alcançável.

     

              A história comandada pelos grandes atores desse tempo real, que são, ao mesmo tempo, os donos da velocidade e os autores do discurso ideológico. Os homens não são igualmente atores desse tempo real. Fisicamente, isto é, potencialmente, ele existe para todos nós. Mas efetivamente, isto é, socialmente, ele e excludente e assegura exclusividade, ou, pelo menos, privilégios de uso.

     

              Como ele é utilizado por um número reduzido de atores, devemos distinguir entre a noção de fluidez potencial e a noção de fluidez efetiva. Se a técnica cria aparentemente para todos à possibilidade da fluidez, quem, todavia, é fluido realmente? Que empresas são realmente fluídas? Que pessoas? Quem, de fato, utiliza em seu favor esse tempo real? A quem, realmente, cabe à mais-valia criada a partir desta nova possibilidade utilização do tempo? Quem pode e quem não pode? Essa discussão leva-nos há uma outra, na fase atual do capitalismo, ao tomarmos em conta a emergência de um novo fator determinante da história, representado pelo que a aqui estamos denominando de motor único.

     

     

    O motor único.

     

              Esse período dispõe-se de um sistema unificado de técnicas, instalados sobre o planeta informado e permitindo ações e igualmente globais. Até que ponto podemos falar de uma mais-valia a escala mundial, atuando com um motor único de tais ações?

     

              Havia, com o imperialismo, diversos motores, cada qual com sua força e alcance próprios: o motor francês, o motor inglês, o motor alemão, o motor português, o belga, o espanhol etc., que eram todos motores do capitalismo, mas empurravam as máquinas e os homens segundo ritmos diferentes, modalidades diferentes, combinações diferentes. Hoje haveria um motor o único que é, exatamente, a mencionada mais-valia universal.

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